sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ressurreição

Em tempos alguém me disse - que numa vida há várias vidas.
Pessoa sábia!
Nessa altura sentia-me a morrer, estava cega pelo fervor do fim e não queria saber de mais nada.
Mais tarde, numa idade em que já tinha vivido o suficiente para confirmar que não tinha morrido e que a vida está sempre a reservar-me novas vidas, entendi.
Um dia vou-lhe agradecer por isso.

Chamei ao meu blog Zero, talvez porque sinta que estou sempre, de tempos a tempos a iniciar qualquer coisa e ao mesmo tempo a perdê-la. Para os mais próximos chamei-lhe Jardim e “Há tanto tempo que não me ocupo do jardim”.
Para aqueles que me entendem e para os outros, prometo voltar, com novos pequenos filmes.
Nos jardins o tempo imprime o seu próprio ritmo - há que saber esperar.



O JARDIM
[Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim
A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação
Os meus amigos traziam as bebidas
E a jovialidade
O jardim enchia-se de gente
De beijos
Pelos cantos Sôfregos de desejo

Inventávamos planos de rebelião
Sonhos de transmutação
Passávamos horas a inventar
Entre duas carícias
Surgiam ideias puras e inocentes
Como a nossa vontade de tudo abarcar
Era um frenesim constante
Faz-me pena agora
Olhar para ele
Para as suas sebes abandonadas
De ramos retorcidos
Jaz tombada a grande epícea
E uma enorme cratera
Substitui os belos canteiros de outrora

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim
A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Série #1, #2, #3

Esta série de três filminhos está muito longe do conceito original que lancei ao Prof. Paixão da Costa.
Na verdade, não tive tempo de ir filmar e usei pedaços de filme que fui fazendo ao longo dos tempos.
De qualquer maneira tentei arranjer uma sequencia lógica para o que vou apresentar.


Série #1
Créditos:
Filmagem: Rodrigo Miragaia
Montagem: Sara Rocio
Música: “Í Gaer” Sigur Rós

Série #2
Créditos:
Filmagem: Sara Rocio
Montagem: Sara Rocio
Poema: Fernando Dinis
Composição som: Rodrigo Miragaia

Série #3
Créditos:
Filmagem: Rodrigo Miragaia
Montagem: Sara Rocio

Serie #1

Série #2

Série #3

domingo, 6 de julho de 2008

PESADELO

O PESADELO surge no seguimento do lançamento da Big Ode #5, que se rege sob este tema.
A ideia de usar filmes do cinema mudo, é mais do que uma simples opção.
Sempre me fascinou o requinte experimental deste período cinematográfico.

Para realizar esta montagem fiz uma pesquisa sobre filmes de terror do início do sec.XX, seleccionei alguns e filmei-os do ecrã do computador.
Não pretendia que se tratasse de uma colagem linear mas sim, tentei criar um novo dialogo entre os vários segmentos escolhidos.
L´Inferno (1911), Francesco Bertolini; Les Vampires (1915), Luis Fenillade; Der student von Prag (1926), Henrik Galeen; Der Golem (1915), Henrik Galeen; German Expressionism (1920), ?; The Cabinet of Caligari (1920), Robert Wiene; Le paission de jeanne dárc (1928), Carl Drayer; Nosferatu (1929), F.W. Murnau; Sunrise (1929), F.W. Murnau; Fausto (1924), F.W. Murnau.
Uma imagem recorrente é a do gira-discos, aparece como forma de criar ligação com a ausência técnica de som e reforça a ideia do som imaginado.
No final fica o prazer da brincadeira e um pequeno olhar para trás.


sexta-feira, 27 de junho de 2008

LUGAR COMUM como num filme

....Um carro desloca-se rumo ao Cabo Espichel, um manto espesso de nuvens encobre o céu, ao fundo no horizonte uma luz rosa anuncia o fim da tarde. O farol indica o caminho.
Rita puxa um cigarro do maço que se encontra na sua mala à tira cole, acende-o lentamente, recosta a cabeça para trás e expira o fumo.
Mário conduz calado. Olha para o vazio.
O carro curva e o farol afasta-se do ângulo de visão.
O carro continua a sua marcha rumo ao Cabo Espichel.
Rita apaga o cigarro no cinzeiro.
Mário olha com ternura para os gestos da sua mão.
Os seus olhares cruzam-se. O carro é ultrapassado por outro.

Do carro observam a chegada ao misterioso convento do Cabo Espichel. Contornam-no. Está escuro as luzes das roulottes e o barulho dos geradores acentuam o desolado fim da terra.
O carro percorre para o promontório ao aproximar-se a visão é estranha e surpreendente, o cabo parece suspenso por balões. Os reflexos do farol sobre o branco enorme dos balões faz sombras e desfaz. Mário fica estupefacto. Rita dá-lhe uma festa no rosto que desce até as suas mãos caídas no seu colo. Mário debruça-se e tira do tablier a caixa intacta que Rita lhe tinha dado. Abre-a ...e uma madeixa do cabelo de Rita, está atado com uma fita de seda....







INtactos GLAD!

INtactos GLAD!

A vida mudou muito com a invenção da película aderente Glad.
Os alimentos ficaram mais acondicionados das interferências externas. Construíram à sua volta um casulo que os protege. Agora podem ser consumidos com maior higiene.
Lá dentro existe maior segurança e sossego. Os corpos permanecem, INtactos.

FIM-FILME

FIM



Um Homem depois da sua morte mas ainda com alguma consciência da vida, procura o seu lugar.
Alguém o acompanha.
Entre o silêncio, as poeiras e os estilhaços de uma floresta morta, as vozes encontram-se numa poesia apocalíptica.
O céu retalhado, encobre o corpo já nu...a luz corrói todas as formas...O texto mudo acompanha a música... Fim.