sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ressurreição

Em tempos alguém me disse - que numa vida há várias vidas.
Pessoa sábia!
Nessa altura sentia-me a morrer, estava cega pelo fervor do fim e não queria saber de mais nada.
Mais tarde, numa idade em que já tinha vivido o suficiente para confirmar que não tinha morrido e que a vida está sempre a reservar-me novas vidas, entendi.
Um dia vou-lhe agradecer por isso.

Chamei ao meu blog Zero, talvez porque sinta que estou sempre, de tempos a tempos a iniciar qualquer coisa e ao mesmo tempo a perdê-la. Para os mais próximos chamei-lhe Jardim e “Há tanto tempo que não me ocupo do jardim”.
Para aqueles que me entendem e para os outros, prometo voltar, com novos pequenos filmes.
Nos jardins o tempo imprime o seu próprio ritmo - há que saber esperar.



O JARDIM
[Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim
A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação
Os meus amigos traziam as bebidas
E a jovialidade
O jardim enchia-se de gente
De beijos
Pelos cantos Sôfregos de desejo

Inventávamos planos de rebelião
Sonhos de transmutação
Passávamos horas a inventar
Entre duas carícias
Surgiam ideias puras e inocentes
Como a nossa vontade de tudo abarcar
Era um frenesim constante
Faz-me pena agora
Olhar para ele
Para as suas sebes abandonadas
De ramos retorcidos
Jaz tombada a grande epícea
E uma enorme cratera
Substitui os belos canteiros de outrora

Há tanto tempo que não me ocupo do jardim
A última vez estava frondoso
A buganvília a tingir-se de vermelho
Trepando O perfume inebriante
E as festas ao cair da tarde
Parece que foram há séculos
Noutra encarnação