sexta-feira, 28 de maio de 2010

Talvez, Uma boa razão para ir ao Meco no dia 16 de Julho

"JAMIE LIDELL dele espera-se sempre o inesperado

O homem não está aqui para enganar ninguém. No seu álbum mais conhecido, “Multiply” (2005), cantava no tema-título “i’m so tired so tired so tired so tired of repeating myself, gotta take a trip and multiply”, dando-nos pistas sobre a sua personalidade inquieta. Por essa altura, quando o... entrevistámos, dizia-nos alegremente que “tinha tendência para uma certa esquizofrenia”, ou pelo menos para se “colocar em situações de extremos.” Nitidamente, Jamie Lidell é alguém que gosta de gestos largos. Gosta de se pôr em causa. Faz o que lhe apetece.

Já foi maníaco dos computadores em alguns discos. Mas também cantor soul, daqueles que acorda a cantar Marvin Gaye pela manhã e acaba a ser ele próprio, à noite, num palco qualquer. No novo álbum “Compass” não se percebe exactamente o que quer ser. Dizemos nós, que em algumas canções vislumbramos um Tom Waits psicadélico, noutras um Otis Redding tecnológico e noutras um Prince baladeiro como se fosse triturado pelos Grizzly Bear. É o seu disco mais disperso, não existe propriamente um centro, uma ideia nuclear, mas ele parece convicto das suas razões.

“É o meu álbum mais pessoal, tanto a nível lírico como da música”, diz, argumentando que necessitava de deslocar da cidade onde criou os anteriores álbuns – Berlim – e do grupo de cúmplices com quem regularmente colabora, em especial Mocky. É que os dois últimos álbuns (“Multiply” e “Jim”, de 2008) haviam sido criados em regime de parceria com o cantor e músico canadiano. Desta feita existe também um naipe de colaboradores de respeito. Mas o processo foi completamente diferente. O ano passado o inglês mudou-se para Nova Iorque. Uma modificação que nada teve a ver com música, embora reconheça que a cena tecno minimal, à qual a capital alemã é associada, o foi aborrecendo progressivamente (“tornou-se demasiado previsível e falta-lhe o funk”).

Hoje está mais atento ao que se passa em Brooklyn. “Nova Iorque é uma cidade incrível, mais humana, calorosa e colaborativa do que estava à espera”, afirma. O ano passado recebeu um telefonema de Beck, com quem tinha andado em digressão em 2006, perguntando-lhe se queria encetar uma colaboração com ele. “Foi um telefonema decisivo, porque não sabia o que fazer naquela altura e o que aconteceu acabou por precipitar uma série de acontecimentos”, revela. Lidell esteve em estúdio com Beck dois dias e, posteriormente, viria a participar no projecto deste denominado Record Club, que não é mais do que uma forma do músico americano reunir uma série de conhecidos em estúdio para criarem versões de um determinado álbum.

Lidell participou na feitura de versões de “Oar” de Skip Spence. Foi aí que conheceu James Gadson, lendário baterista que tocou com Marvin Gaye ou Bill Withers.
“Depois da primeira sessão com Beck, desapareci durante um mês, tinha a cabeça a latejar, tinha conhecido James Gadson, um tipo incrível, caloroso, e só pensava em fazer música” diz. Incentivado por Beck, e entusiasmado com o clima das gravações, acabaram por reunir-se todos em estúdio, na companhia da cantora Feist e de Pat Sansone dos Wilco, desta feita tendo por finalidade ajudar Lidell no seu novo álbum.

“De repente tinha aquela gente toda a trabalhar para mim, Beck a dar-me força, foi fantástico. E quando não foi possível completar algumas ideias, desenvolvemo-las mais tarde, através de email, como aconteceu com Pat Sansone ou Gonzales.” Outra ajuda importante foi a de Chris Taylor, líder dos Grizzly Bear. “Durante uma série de tempo andava obcecado com o álbum ‘Veckatimes’, tudo aquilo me parecia complexo e sofisticado”, afirma, “depois pude confrontar-me com a forma simples e despreocupada como Chris trabalha. Parece fazer pouco, mas obtém muitos resultados e foi também importante.”


Apesar das muitas colaborações, insiste em como este é o seu disco mais pessoal. Aquele em que não se esconde. A razão, diz, é uma mulher. O título de algumas canções (“Completely exposed”, “she needs me” ou “Your sweet boom”) é significativo. “Fartei-me de falar de mim, a partir de temáticas genéricas que supostamente podem interessar à maioria. Neste disco optei por me olhar ao espelho de forma diferente e gostei.”
As aventuras de Lidell iniciaram-se quando deixou a casa dos pais, em Cambridge, para iniciar um curso de ciência médica na Universidade de Bristol.

Depois de uma interrupção de seis meses, devido a doença, mudou para filosofia, em parte porque, pelo menos na sua fantasia, implicava menos horas de estudo.
O universo da música não lhe era estranho. A mãe era cantora profissional numa orquestra. Em casa ouvia Michael Jackson e Prince, mas na década de 90 gostava era de festas de música tecno. Cantar, só no chuveiro. Mas na segunda metade dos anos 90 acabou por conhecer o produtor Christian Vogel, com quem inicia os Super Collider, um projecto que lhe permitiu subir ao palco e cantar em falsete. Em simultâneo editou trabalhos a solo de electrónica abstracta em editoras como a Mille Plateaux.

Em 2000, saturado de Inglaterra, muda-se para Berlim, onde acaba por conectar-se com outros emigrantes conhecidos, como Mocky, Peaches, Taylor Savy, Gonzales ou Kevin Blechdom.
Na capital alemã reencontrou-se. Aos poucos o maníaco dos computadores foi percebendo que aquilo que lhe dava realmente prazer não era esconder-se por detrás da parafernália digital, mas sim pegar no microfone e cantar diante de audiências. “Sempre gostei de experimentar os limites da tecnologia, mas ao mesmo tempo de grandes cantores soul, da energia da voz.”
O anterior álbum, “Jim”, parece ter funcionado como a depuração máxima desse percurso. Era o disco de alguém que já não estava interessado em iludir influências clássicas da soul e do funk, mas sim de as assumir e incorporar, não para se fazer passar por outros, mas para transmitir o prazer que lhe ia na alma em ser ele próprio.

Muitos dos que cresceram habituados a vê-lo como um homem das electrónicas torceram o nariz. “Não me preocupa”, diz, “não penso nisso, até porque o espírito aventureiro original da electrónica já não é a mesma coisa.”
O novo álbum dir-se-ia uma súmula de várias fases, mistura de cerebralidade electrónica, sangue soul e fisicalidade funk, mas sempre a partir de ângulos inusitados. Se “Jim” parecia um álbum de fim de ciclo, “Compass” soa a disco em trânsito, à procura de um novo lugar. Para já, esse lugar são os palcos.
No Verão, apresenta-se ao vivo em Portugal. Será a 16 de Julho, no Meco, no Festival Super Bock Super Rock. Quem já o viu ao vivo, sozinho, sabe do que é capaz, improvisando com a tecnologia, fazendo sons percussivos com a voz, reproduzindo-os e alterando-os electronicamente em tempo real. Mas desta feita virá acompanhado por três músicos.

“É um tipo de formação que me dá outro tipo de liberdade” diz. “Dá-me espaço para me concentrar na voz e há mais cumplicidade em palco”, afirma, concluindo que “a surpresa e o inesperado são muito importantes.” Até aí já todos tínhamos chegado. "
Vitor Balanciano in
PÚBLICO (Ípsilon)
21-5-2010


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