sexta-feira, 22 de outubro de 2010

The Woman with the 5 Elephants - de Vadim Jendreyko



Voltar.

Estar a voltar.

Durante algum tempo, que já não sei precisar, debrucei-me intencionalmente para um fundo, no qual me retive na companhia de uma série de mortos/vivos entre eles, Fiódor Dostoiévski. De lá saiu um filme e uma espécie de análise.

Agora penso, como durante tanto tempo, e digo tempo, mas também palavras, pude ausentar-me do mundo dito real.

É difícil voltar. O mundo não é o mesmo - dizem-me.

Para trás fui perdendo não só o real mas também a realidade.

Quando se volta de qualquer lado, sente-se um misto de emoções, entre o saudoso desencanto e o saudoso desconhecido, parece que o chão que sempre pisamos está estranhamente diferente, quando de facto está igual.

Voltar à realidade dói, voltar aos vivos, aos ditos reais torna-se desconfortável e deslocado. Parecem mortos, repetitivos, desabitados de tempo e de palavras.

Porque é que tem ser assim? - perguntei um dia à mesa de jantar. Porque é que ninguém me avisou que era assim?

Cresci na ilusão de liberdade, que um dia não seria verdadeiramente de ninguém e que me amariam e cuidariam na mesma. Agora vejo, que a liberdade é só o nome de uma avenida linda, frondosa de árvores, loucos abandonados e livres. Hoje um deles pediu-me um cigarro, sorriu com aquele jeito de quem não está habituado a sorrir, era verdadeiramente de ninguém, o cigarro foi-lhe dado, ele seguiu como eu segui.

O filme antes marcou-me para sempre, a vivacidade vibrante numa mulher octogenária, enorme vida, cheia de palavras e de tempo. Um filme que revela um ser habitado por outros seres, mortos/vivos e vivos que já não puderam viver. Tradutora, antes, amante das palavras, dos sentidos e dos escritores russos.

Maravilhoso...

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