sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

José e Pilar um filme de Miguel Gonçalves Mendes



No feriado,

Aproveitei um pouco de tempo, com alguém a quem o tempo lhe foi tirado.

Há pessoas por quem a vida não passa, não existem, sendo assim o tempo é-lhes inútil, porque simplesmente não precisam dele, e há outras, para quem o tempo não chega. Pode parecer injusto, mas o tempo quando se alarga por dentro escapa-se cronologicamente, numa directa relação contraria, mais por dentro menos fora.

O tempo acabou por ser muito mais do que o tempo do filme, foi algum tempo da vida de dois seres.

“José e Pilar”

Não acredito no amor, já o disse aqui antes, mas uma bela historia de amor comove-me até às lágrimas. Chorei, sim chorei discretamente na sala de cinema, ninguém deu pelo o meu choro, por dentro as lágrimas corriam quentes, senti-as escorregar pela garganta, com sabor a mar. O meu mar. O mar que não vejo há tanto tempo, aquele, batido e feroz, espumoso e branco, brumoso e cinzento esverdeado do Pedrogão.

“José e Pilar”

Também ri, ri com uma sonoridade fina, porque não sei rir de outra maneira. Ri com o prazer da presença, com a delícia de poder por pouco tempo entrar na vida daquelas pessoas que tanto me deram naquele momento. Não interessa se concordo ou não com o que pensam ou dizem, não interessa não mais, do que terem aberto a porta para eu entrar e viver com elas a sua vida. Gosto de viver a vida dos outros. Gosto de estar com eles de qualquer maneira. E estes outros, disseram-me coisas que me deixaram a pensar e fizeram-me sentir coisas que me deixaram a sentir.

“José e Pilar”

A doçura e ternura, encantaram-me, é bonito, lindo, quando dois seres se necessitam tanto, quando tudo parece fazer parte um do outro, quando o tempo lhes escapa escorregadio, mas penetrante. Faz sentido. E fazer sentido não é pouco, num tempo em que quase tudo parece não fazer sentido.

Talvez por ser um tempo sem sentido, existam ainda pessoas capazes de se separar do seu tempo e criarem um tempo próprio. Foi o que senti, não por se terem afastado da realidade do seu tempo, mas por terem uma enorme consciência dele e por isso não se terem deixado ir.

“José e Pilar”

Saber parar, parar o tempo, confina-lo a uma cápsula resistente de existência. E vivê-lo, sim digo vivê-lo, com toda força vital, mesmo quando se está preso por um ténue fio de vida.

Há pessoas que dão vida, outras que subtraem a vida. Isto poderá ser o mais importante nas relações entre pessoas.

Não sei explicar, nem tudo se explica, por vezes penso que pode estar relacionado com o nível de encontro, empatia. De não ser preciso, palavras, e ficar tudo contido em actos.

Pois, são nos gestos, olhares, respirares, sentires que se encontra a saída da vulgaridade dos dias. O problema é que tardam em acontecer. Em alguns casos nunca chegam. Porquê? Não sei...

Há um momento para as viragens, há um tempo para cada coisa. Apesar de não acreditar no destino.

Há um tempo para nunca acontecer.

“José e Pilar”

Um filme.

Mais do que isso.

Mais do que a vida.

É o mistério.

O mistério do tempo na vida.

Adorei. E vou recordar aquele momento até deixar de ter memória. Que também não vai ser difícil, porque me esqueço de tudo.

É cruel o fim. É cruel o esquecimento.




(desculpem os erros ortográficos ou outros... sou perita a errar.)

4 comentários:

migalha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
migalha disse...

depois deste filme, é dificil não acreditar no amor... a palavra pode ser outra, mas o significado é : algo que junta, cola, identifica, une,amarra voluntáriamente, mistura e no entanto, mantém a identidade do eu, do tu, perdura, não sabemos por quanto tempo, não interessa, é lindo, quando existe, quando se vê, e soberbo, quando o sentimos...

sara rocio disse...

quem me dera ser mais crente...em todo caso confio em ti... :)

Maria Quintans disse...

gostei tanto deste teu texto! apeteceu-me saltar daqui e ir ver o filme para poder perceber da partilha. para poder perceber do tempo. o tempo não chega. esse tempo de que falas está entre o nunca e o se calhar sim. é um piscar de olhos quando olhamos a estrela mais brilhante. é nesse tempo que estamos. entre o mar (esse teu de Pedrogão) e um empurrão da lua até ao fim da estrada. que não tem fim. que é sempre essa a reclamar a vida que não é mais que um segundo de riso, alegria, e lágrima e qualquer coisa mais quando andamos na estante à procura do livro que não há. não está lá. acabou de se perder ou então nunca foi escrito. só na nossa memória. só no nosso sonho. só no nosso canto remendado de luz. só nós a cair devagar no canto do quarto à procura do livro que nos há-de parecer nosso, porque tudo o que queremos está ali. achamos nós. mas está escondido no nosso fundo mais fundo. num alçapão de medos. num alçapão de dúvidas. e só por isso a luz é um fio escorregadio do tempo.

um enorme beijo, minha querida sara.

maria